segunda-feira, 27 de agosto de 2012
sexta-feira, 18 de maio de 2012
CRÔNICA: "FRAGMENTOS DE UMA DESPEDIDA"
Crônica do Livro:"CAUSOS" CLÍNICOS
Autor:Fernando Ortiz
![]() |
| Nick |
Não faz tanto tempo, foram exatos 11
anos e 10 meses que conheci meu amiguinho da espécie canina e da raça schnauzer,
que o chamamos de Nick. Lembro-me que eu e minha esposa tomamos esta decisão,
para trazer companhia ao nosso filho, na ocasião uma criança de seis anos de
idade. E posteriormente descobrimos que ele se transformaria em grande
companheiro para todos, especialmente para mim.
Recordo-me como se fosse ontem as suas
travessuras,quando ainda tinha seis meses de idade,adorava morder e destruir os
chinelos de todos.E não adiantava a "bronca" que levava.Descuidávamos um pouco,e
lá ia ele morder e destruir um novo chinelo.Ele dormia em sua caminha,mas no
nosso quarto.E todas noites ele vinha até ao meu lado da cama e com a patinha me
acordava.Não havia dúvidas ele estava com vontade de fazer "xixi".E bastava eu
abrir a porta do quarto,e ele saia correndo até o jornal estendido na área de
serviço para fazer o seu "xixi"(sempre foi muito higiênico,aprendeu rápido a
fazer suas necessidades nos lugares determinados).Depois com olhar de gratidão
retornava para sua caminha e eu para a minha.Isso foram várias vezes em vida.Não
adiantava eu deixar a porta do quarto aberta ,pois assim mesmo ele me chamava
para o seu "xixi" noturno.Porque eu e não minha esposa?Isso ele nunca me
explicou.
Tinha uma personalidade amigável e
inteligência notável.Sempre afetuoso e simpático,sentia-se quase
um humano.
Quando passei muitas vezes à noite em
claro, escrevendo meu livro. Ele por livre e espontânea vontade permanecia ao
meu lado, e não adiantava a minha esposa chamá-lo, ele resistia e permanecia ao
meu lado.
Na verdade, o meu amiguinho subia numa
cadeira e debruçava-se sobre a minha mesa de trabalho e ali permanecia por horas
afio,observando-me enquanto eu digitava o livro. E isso levou seis longos meses.
E ele sempre ao meu lado madrugada adentro.
Quando saíamos para trabalhar ou mesmo
para fazer compras no supermercado, bastávamos a nossa volta para sermos
recebidos com acalorada recepção por parte dele, eram incontáveis pulos de
alegria e manifestações de contentamento com a nossa chegada. Todos os dias era
a mesma situação, bastávamos sair para que na volta fossemos recepcionados com
festa pelo nosso "lobinho”. Ele fazia-me sentir o verdadeiro lobo alfa da alcatéia, ou seja, da família.
Ele cativava por captar o "espírito"
da casa e entrar no nosso ritmo de vida, deixando-se influenciar pelo nosso
temperamento.Gostava de participar do nosso cotidiano.
Algumas vezes que me sentia triste e
aborrecido com determinada situação, lá estava ele para consolar-me. Permanecia
ao meu lado, fitando-me e com o olhar parecia que compreendia meu
sofrimento.Adorava companhia, detestava ficar só e, por isso, procurava ficar
no mesmo ambiente da casa onde havia uma pessoa,de preferência minha esposa.Na
ausência dela, permanecia ao lado da porta da rua, esperando pacientemente a sua
volta. Atitude esta que gerou um comentário dela:
-Fernando, você reparou que o Nick,
parece que divide seus sentimentos. Se você se ausenta não basta minha
companhia, ele se posta diante da porta esperando por você. E quando sou eu é a
mesma coisa. Ele só esta feliz com a presença de nós dois!Tive que concordar. O
nosso cãozinho tinha de fato uma fidelidade
inquestionável.
Se estivéssemos em casa assistindo TV, ele permanecia ao nosso lado
deitado no tapete da sala, como se estivesse assistindo a TV também. Era um
companheiro inseparável.
Quando viajávamos ele escolhia a
janela do carro para colocar a cabecinha para fora e ficar tomando o vento na
sua carinha peluda!
Tinha um gênio irascível, se não
gostava de alguma coisa rosnava e não adiantava insistir que talvez ele
mordesse!Nunca tentamos passar deste limite para não testar seus afiados
caninos!Não gostava de ser escovado, não gostava de ser agarrado, para tomar
banho era uma briga, pois ele relutava em ir. E para dar uma lambidinha em sinal
de gratidão como outros cães fazem era raridade. Mas não importa gostávamos dele
do jeito que ele era!E ele se relacionava muito bem com a gente. Sempre alegre e
brincalhão.Mesmo com a idade mais avançada,foi sempre um
grande companheiro.
E foram exatos 11 anos e 10 meses de convivência. Mesmo portador de
diabetes e cego, ele se adaptava as adversidades, lutava com tenacidade contra a
doença.Tinha uma grande vontade de viver, e nos brindava todos os dias
com exemplos de perseverança e superação. Até que um dia, já debilitado com a
doença que o consumiu, ele era também portador de um mastocitoma, não resistiu,
e foi acometido por um fulminante ataque cardíaco. Deu um sussurrado grunhido e
foi-se. Não deu tempo para despedidas.Em silêncio e sem alardes, nosso grande
amigo partiu. Na verdade era um anjo disfarçado de amigo. Era puro e inocente. E
fez nossa vida colorida e recheada de beleza.
Quero ter eternamente sua amizade. Até aqui
viajamos juntos. Mas você nos deixou, seguindo outro caminho. Embora assim
quisesse o destino. Leve nossa saudade e a
nossa esperança de um reencontro. Adeus meu amigo Nick!
(20/07/2000-12/05/2012).
quarta-feira, 25 de abril de 2012
CRÔNICA: "REMINISCÊNCIAS DA INFÂNCIA"
Crônica do Livro:"CAUSOS CLÍNICOS"
Autor:Fernando Ortiz
![]() |
| Foto da Maria Louca |
Lembro-me, tinha aproximadamente
uns cinco anos de idade. Usava calças curtas com suspensórios e ficava sempre
debruçado sobre uma janela que se abria para rua, assim com ajuda de uma cadeira
a qual me apoiava, eu passava horas do dia espiando os movimentos dos
transeuntes que passavam. Carros naquela época eram escassos, mas pessoas
transitando eram muitas. E eu ficava fascinado com minha diversão, pois
descobria diversos tipos de pessoas, até então desconhecidas para mim. Enfim,
descobria o mundo além dos rostos conhecidos da minha família. E eis que me
deparei certa vez com uma mulher com os cabelos desgrenhados, que vinha
caminhando do outro lado da calçada, toda maltrapilha, com uma expressão de
botar medo, gesticulava muito e falava sozinha. Quando avistei esta figura
horripilante, estremeci dos pés a cabeça, e minha reação de imediato foi fechar
a janela e esconder-me debaixo da cama até o medo passar. Contei o fato para vó “Mariquinha”, apelido carinhoso de Dona Maria de Moura Neves (minha
avó), que de pronto aconselhou-me para afastar-me de tal mulher, pois tratava-se
da temível "Maria Louca",raptora de crianças.Isso encheu-me de mais medo e
temor!
Minha avó percebendo meu abalo
emocional abraçou-me e cobriu-me de beijos, acolhendo-me em seu aconchegante e
doce colo. E eu fiquei aninhado por horas até sentir-me bem
novamente.
Minha avó dizia em alto e bom
som que era seu "porretinho”, pois ela tinha dificuldade para caminhar, então
ela se apoiava em mim. E assim me levava com ela em suas visitas à suas amigas,
nestes encontros elas conversavam muito sobre a vida e a família. Toda esta
conversa era permeada por chá e biscoitos, estes eram os meus prediletos. Na
maior parte do tempo, permanecia quieto e calado!E essa atitude, era elogiada
pelas amigas de minha avó!Vezes e outras eu era tentado pela minha curiosidade a
mexer nos objetos ao meu redor! Certa vez na casa de uma amiga de minha avó,
Dona Belinha, fiquei tentado a tocar num vaso de porcelana. Na mesma hora, a
tal senhora chamou minha atenção e sem que minha avó percebesse
aplicou-me vários beliscões no braço. Lembro-me até hoje que doeu muito, contive
meu choro, mas as lagrimas foram inevitáveis e minha avó não se deu conta da
situação!E toda vez que ela resolvia voltar a visitar esta senhora eu relutava
em ir!Chorava muito e argumentava que na casa daquela senhora eu não voltaria
nunca mais!Minha avó ficava sem entender minha atitude e eu jamais lhe contei o
motivo!
Ela me levava também às missas,
eram todos os dias. E eu permanecia muitas vezes em pé por horas, por falta de
lugar para sentar. Outras vezes sentava-me no colo de minha avó. Mas, a ida às
missas para mim era a maior amolação, pois eu não entendia nada que o padre
dizia, pois a pregação era toda dita em latim. Isso era uma chatice!Minha avó
percebendo este fato resolveu a questão, subornando-me com um bolinho chamado
"Mãe Benta”, que ela adquiria numa padaria próxima e me ofertava após as
missas!Assim eu passei a acompanhá-la as missas sem reclamar!Enfim, eu era seu
"porretinho" e um grande apreciador de "Mãe Benta"!
Certa vez, minha avó precisando
ir à padaria que ficava a um quarteirão de nossa casa, deixou a porta
entreaberta, e aconselhou-me que não saísse em hipótese nenhuma para rua, e que
eu ficasse tranquilo que ela voltaria em instantes, naquele dia estava somente
eu e ela em nossa casa!Assim eu fiz, fiquei sentado no sofá de casa aguardando a
volta de minha avó!Após angustiosos minutos de espera, tocaram a
campanhia!Pensei com meus botões: A porta está semi-aberta, porque estaria minha
avó tocando a campainha?Mas levado pela alegria de vê-la novamente, corri até a
porta e a abri por completo!E tive a maior decepção, pois de frente para mim
estava a "Maria Louca”, que me indagou: Têm alguém em casa moleque?Estremeci por
completo, o medo tomou conta de mim, imediatamente meu coração disparou e não
pensei duas vezes corri para o interior da casa e me escondi debaixo da cama dos
meus pais e ali permaneci. Ouvi os passos daquela mulher invadindo a casa, e ela
passou pelo quarto e caminhou até a cozinha. Mexeu nas panelas!E em seguida
passou a procurar-me pela casa e dizia: Vou te pegar menino!Esteja onde
estiver seu danado!
Logo me avistou debaixo da cama,
e estendeu sua mão para puxar-me pelas pernas,vivi momentos de terror,fiquei
paralisado de medo!Até que a "Maria Louca” conseguiu agarrar-me por uma perna e
me arrastou-me até a porta da minha casa!E segurando forte pelo meu braço
levou-me para rua!Gritei por socorro diversas vezes... Na esperança que algum
vizinho ouvisse!Quanto mais eu gritava mais ela gargalhava!E assim foi me
levando para longe de minha casa. Estava rouco de tanto gritar,quando o dono do
bar ,que ficava na esquina de casa, arrancou-me bruscamente dos braços
daquela doida e segurou-me no colo, protegendo-me! E com safanões e palavrões
afastou aquela mulher para longe de mim!Entre choro e soluços,ele me
acalmou,segurando na minha mão levou-me de volta para minha casa!No caminho
encontramos com minha avó que já vinha ao meu encontro, também em prantos!E
perguntava ela: Onde você estava Fernandinho?
O homem que me salvará das
mãos daquela mulher, explicou o sucedido para minha avó!Ela surpresa,comovida
agradeceu e ainda em prantos abraçou-me e beijou-me e acolheu-me em seu
aconchegante colo e disse-me baixinho: Perdoe sua avó, Fernandinho!E pediu-me
para guardar segredo deste fato!
Somente agora após 50 anos de
sua morte estou tornando público este acontecido!Perdoe-me pela indiscrição vó
“Mariquinha”!
quinta-feira, 19 de abril de 2012
CRÔNICA:"VIDA DE CÃO"
Crônica do Livro:"CAUSOS CLÍNICOS"
Autor:Fernando Ortiz
Tenho
o costume de abastecer o meu veículo sempre no mesmo posto de gasolina, sendo
assim escuto muitas histórias contadas pelos frentistas. E uma delas chamou
minha atenção, dizia um frentista na ocasião, que um cão vagava todos os dias
pelas redondezas do posto. E contava, ele:
Autor:Fernando Ortiz
![]() |
| Cão Lélo |
-Doutor,
existe um cão de cor amarela, de grande porte, raça indefinida, quero dizer
vira-lata!Vem sempre ao posto, e o interessante é que toda vez que avista um
carro de polícia ele late insistentemente para a viatura e para os policiais!Que
coincidência! Olhe ele ali, não é mesmo grande e amarelo?
Vi o
cão e concordei. E ele continuou: Parece que ele tem bronca dos guardas, não é
mesmo?
-Eu
acho que ele guarda na memória algum tipo de maus tratos que
sofreu!Retruquei.
-Pode
ser Doutor!Disse e continuou a história:
-Contam
que o "Lélo”, nos o chamamos assim, pois é... Ele pertencia a um sujeito que
morava naquela casa de esquina, vizinha ao posto... Certa vez este cara foi
preso pela polícia devido a algum delito que cometeu, e o cão presenciou o
fato... Como ele resistiu à prisão, os policiais tiveram que utilizar a força
para prendê-lo, o cão tentou protegê-lo, mas foi impedido pelos guardas!Desde
então sem dono e sem lar, o cão vaga pelas ruas e pernoita no posto!E o
interessante que este local é próximo a casa onde antes morava!De repente ele
interrompe:
-Doutor,
eu estou contando a história do cão para o senhor, mas olha ele latindo para a
viatura policial que esta passando na rua neste momento!
-É
mesmo, você tem razão!Concordei. E logo avistei o cão latindo para os
policiais.
-É como eu
disse Doutor, o danado do cão é invocado com uma viatura policial! Tentei
explicar:
-Os
animais de estimação, principalmente os cães, podem ficar "aborrecidos" como
crianças quando expostos a situações de conflito!
-É
mesmo, Doutor?Continuei com as minhas argumentações:
-Os
cães são capazes de ter empatia com os humanos a ponto de compartilhar as mesmas
emoções de seus donos!E isso justifica o comportamento deste cão
atualmente!
-Poxa,
Doutor!Exclamou ele. E eu continuei:
-Ele
está demonstrando descontentamento com os guardas, por
alguma experiência negativa vivida anteriormente!Essa atitude vai além de uma
simples cópia do comportamento humano, pois eles são afetados física e
emocionalmente quando expostos a situação de stress. Eles também possuem a
habilidade de esboçar reações em situações reais de conflito.
-Então
isso explica ele ter tanta bronca de policiais!Deduziu ele.
-É
o que parece!Concluí.
-E
como é que o Doutor sendo médico de gente entende tanto de
animais!Perguntou.
-A
questão não é essa, eu aprendi a conhecê-los para respeitá-los!E hoje sou um
admirador destes fabulosos animais, altamente sociais e
cooperativos!
Em
seguida, desci do meu carro e caminhei em direção ao cão. Ao aproximar-me
afaguei sua cabeça e disse em tom amigável:
-Bom
garoto!Ele abanou o rabo e lambeu-me em retribuição.
Mas,
logo começou a rosnar. Estranhei e virei para trás, deparei-me com um policial,
que disse:
-Doutor,
o senhor está dando atenção para um cachorro de meliante?Argumentei que isso não
era importante.
-O
mais importante é a vida deste animal!Ele riu e completou:
-Deixe
disso, Doutor!Esse cão é somente mais um vira-lata, igual a este tem muitos por
aí!Disse.
Enquanto
o policial falava, observei que o cão se aproximou da viatura e num ato de
bravura com misto de vingança, levantou a pata traseira e sem cerimônias urinou
no pneu da viatura. Esbocei um sorriso e respondi ao
guarda:
-Mas
é isso que faz dele um cão especial, não tem casa, nem alimento, nem tampouco um
dono!Portanto, a partir de hoje vou adotá-lo!Retruquei.
-Então
faça bom proveito, passar bem Doutor!Virou-se e partiu em sua
viatura.
Neste
instante percebi que com o meu ato, tinha em minha posse, uma vida para proteger
e abrigar!E imediatamente "convidei" o "Lélo" a adentrar meu veículo e parti em
companhia de meu mais novo amigo rumo a sua nova família.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
CRÔNICA:"A TENEBROSA DO SEXTO ANDAR”
Crônica do Livro: "CAUSOS CLÍNICOS"
Autor:Fernando Ortiz
![]() |
| Dona Clotilde |
Enfim, mudei. Mudei de
apartamento!Novos ares!Novo ambiente!Lugar arborizado, bem ao meu estilo de
vida!
Estou instalado, após uma
mudança conturbada, aproveito para relaxar e aproveitar o novo lar. E eis, que
sou contemplado com o canto de passarinhos na minha sacada. Perfeito!Não poderia
ser melhor. Local silencioso, tranquilo, vizinhos amigáveis!Toda a mobília no
seu devido lugar!Fim de semana sem plantões médicos!Aproveito para recostar
minha cabeça no travesseiro e tirar uma soneca no meu novo quarto!Estou quase
pegando no sono e escuto um barulho semelhante a uma furadeira!Não é
possível!Será que alguém desavisado resolveu justamente neste dia furar a
parede?Mas é domingo, dia consagrado ao descanso!Não acredito, mas o barulho
ensurdecedor continua: RRREEEERRREEEERRREEE!
Levanto imediatamente da cama
e enfurecido decido interfonar na portaria e reclamar do sucedido:
-Senhor, acabei de mudar-me para
este apartamento e estou tentando descansar neste domingo e sou
surpreendido com o barulho insuportável de
uma furadeira!Gostaria que o senhor verificasse para mim e aconselhasse esta
pessoa a parar!Ao que, retrucou o porteiro:
-Sim, Doutor!Realmente por
normas do condomínio, não é permitido fazer barulho no dia de hoje!O senhor sabe
de onde vem o barulho?Perguntou ele.
-Claro!É no apartamento acima do
meu, talvez o 61?Afirmei.
-Hii... É do apartamento da Dona
Clotilde, uma senhora encrenqueira, mas vou dar um jeito!
Minutos depois, voltou a me
ligar:
-Pronto Doutor!Já fiz a
reclamação!Agradeci, pois tinha certeza que o silêncio voltaria a
reinar.
Estava sossegado pensando com
meus botões: Como era bom relaxar e curtir esses momentos de lazer que a vida
nos proporciona!Estes momentos deveriam ser mais duradouros!De repente
fui interrompido em meus pensamentos por um estridente ruído:
RRIIIIIIMM!
Logo identifiquei que se tratava
da velha senhora do sexto andar, arrastando móveis em seu apartamento!E o meu
sossego havia terminado!
E mais: RRIIIIMMM, o barulho
estridente continuava sem dar tréguas, e novamente: RRIIIIMMM!
Percebi que aquilo não teria
fim, portanto, resolvi de novo interfonar para a portaria do prédio pedindo
providências:
-Senhor Lopes, sou morador do
apartamento 51, estou novamente ligando para comunicar, que a senhora do 61
continua fazendo barulho.Desta vez ela foi longe demais,esta arrastando móveis
em seu apartamento,não permitindo que eu descanse...O barulho é
intolerável! Peço que
tome providências!
-Hii... Doutor!De novo, agora a
coisa complicou é encrenca na certa... A Dona Clotilde é uma velha muito
ranzinza!Vou tentar dar um jeito!
Aguardei, e poucos minutos
depois ele interfonou-me:
-Sabe Doutor!A Dona Clotilde
pede desculpas pelo incômodo!Até achei meio estranho... Mas, ela disse que isso
não iria se repetir!
Fiquei satisfeito com o desfecho
da situação, e tratei de acomodar-me em minha cama para dedicar-me a uma
merecida soneca.
Comecei a pegar no sono e
abruptamente fui despertado com o barulho de contínuas marteladas na parede:
TUM!TUM!TUM!
Era óbvio que o barulho vinha do
sexto andar!Liguei novamente na portaria e fiz nova reclamação!Então o porteiro
me aconselhou:
-Sabe Doutor!Se o senhor quiser
pode falar diretamente com ela, basta ligar 54 e em seguida o número do
apartamento!
-Tudo bem!Respondi.
E assim fiz: Liguei uma, duas,
três, quatro, cinco, seis vezes!E em nenhuma destas vezes, ela não atendeu o
interfone.
Então resolvi decidir esta
situação pessoalmente!E fui bater na porta da moradora do apartamento 61!Bati
insistentemente, e nada!Bati novamente e nada!Tentei a campainha!Nada!Cheguei a
pensar que ela havia saído, mas não! Na certa não queria atender a
porta! Talvez, envergonhada com a sua atitude?Volto ao meu apartamento e tento
novamente cochilar.
Sou surpreendido com uma série
de ruídos: RRREEEERRREEEERRREEE! TUM!TUM!TUM!RRREEERRREEEEERRREEE!
Não acredito, fui direto ao
interfone:
-Senhor Lopes, a velhota voltou
à carga!Não é possível!O barulho é ensurdecedor!Ele ficou mudo... De repente fez
um silêncio:
-Senhor Lopes, Senhor
Lopes, parece que ela parou!Não ouço mais nenhum barulho!
Até que enfim, pensei. Mas, não
iria durar muito! E em seguida adormeci. Após um tempo, ouço: CATAPLAM!Acordo
assustado e olho o relógio, já era meia-noite!
Parece que alguém bateu uma
porta?Penso. Instante depois toca o interfone, era o Senhor Lopes, meio
esbaforido,que diz:
-Doutor, Dona Clotilde passou
agora pela portaria, e disse-me que iria dormir na casa de sua filha!Agradeci e
respirei aliviado, enfim ficaria em paz e com certeza, teria uma tranquila
noite de sono!
Após um domingo cansativo,
exaustivo!Levanto na manhã seguinte e apronto-me para sair, pois iria começar
nesta 2ª Feira uma nova maratona de plantões. Chego ao hospital e dirijo-me ao
consultório, neste momento adentra a sala uma senhora idosa, baixinha e com cara
de poucos amigos.
Li o seu prontuário sobre minha
mesa, e constatei surpreso que os dados daquela senhora coincidiam com o meu
endereço: Rua Floriano Peixoto Nº 789 - Apartamento: 61.
Portanto, um andar acima do
meu!E mais surpreso fiquei, quando li o seu nome: Clotilde... Não tinha dúvidas
eu estava frente a frente com a tenebrosa do sexto andar, a terrível
perturbadora do sossego alheio: Dona Clotilde em carne e ossos!Antes que eu
pudesse esboçar alguma reação, ela foi logo dizendo:
-Doutor, eu não tenho muito
tempo a perder, passei um domingo de cão!Um novo vizinho que acabou de se mudar
no meu prédio me perturbou o dia inteiro com suas ligações ao meu apartamento.
Eu sou uma mulher viúva. Sei lá, o que esse tarado queria!Só sei que isso me
deixou muito perturbada!Acredite, tive que dormir na casa de minha filha!Receite
logo, um tranquilizante para mim!
Tentei
argumentar,desisti.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
CRÔNICA:"ENFIM...SÓ!"
Crônica do Livro: "CAUSOS" CLÍNICOS
Autor:Fernando Ortiz
Segundo domingo de Maio,”Dia das Mães”!Mais uma data inventada pelo comércio para aumentar as
vendas... E como faturam, as lojas ficam pululando de gente, todos à procura de
uma lembrancinha para suas respectivas mães! É bonito de se ver... Mas, triste
ao mesmo tempo... Não tenho mais mãe... Não tenho com quem festejar este
dia!Afinal, nos somos tomados por uma enxurrada de comerciais de TV, que
acabamos sendo contaminados!
Eis a questão, com quem comemorar? Minha
companheira saiu para comemorar esta data com sua mãe, ambas foram almoçar
juntas neste domingo, não fui convidado, também pudera trata-se de almoçar com a
sogra... E sogra não é mãe!Vou ter que me virar na cozinha, talvez o velho e bom
sanduíche, que nunca me abandona, sempre esta lá na geladeira esperando a
oportunidade para saciar minha fome, será minha opção!
Fico imaginando que ele é um suculento inhoque...
Pronto, estamos resolvidos!
Mas, minha data irá chegar ”Dia dos Pais”, sou pai
de dois meninos!
Neste dia (mais uma data comercial) serei cultuado,
reverenciado... Todos estarão me convidando para almoçar, ganharei presentes,
será inesquecível!
Há um empecilho... Meus filhos são de mães
diferentes, mas posso contornar a situação, almoçarei somente com os dois, sem a
presença das referidas mães!
Decidido, basta comunicar a ambos!
Não deu certo! Acabo de ser avisado que meus filhos
irão “festejar” o “Dia dos Pais”, com seus respectivos padrastos... Alegaram que
neste dia não poderão abandonar, quem de fato os criaram!
Senti-me o último dos homens! Fui reduzido à mera
contribuição biológica!
Terei que abastecer a geladeira... Mais uma data
comemorativa que comerei sanduíche e sozinho!
Crônica: ”História de uma crise convulsiva”
Crônica do Livro: "CAUSOS CLÍNICOS"
Autor:Fernando Ortiz
![]() |
| João Lapinha |
Eis que adentra o consultório um
homem algemado e escoltado por um guarda. Olho com espanto, mas logo o policial
se apressa em explicar:
-Doutor, eu estou escoltando o
preso para sua consulta rotineira!
Olho para aquele homem cabisbaixo
e logo retruco:
-O senhor poderia fazer a
gentileza de soltar as algemas para que eu possa
examiná-lo?
-Sim, Doutor!Ele não representa
nenhum perigo, trata-se de um tremendo "171"!Mas, cuidado com a
carteira!O vagabundo é especialista em bater carteiras!Advertiu o guarda em tom
jocoso, para em seguida abrir as algemas. O homem sentindo-se mais à vontade,
esfrega as mãos, coça a cabeça e esboça um sorriso amarelo. E resolve contar sua
história:
-Doutor, entrei nesta vida porque
estava na pior.Parece que eu nasci com o urubu plantado no meu destino. Daí, já
viu.não tive outro jeito...comecei a bater umas carteiras e aplicar uns pequenos
golpes nos otários...E como tem otário neste
mundo!!E continuou:
-Até que uma madame,vítima de um
golpe que eu apliquei,resolveu bater com a língua nos dentes e me caguetou para
os homens!Fui pego com a boca na botija. E acabei em cana!Enquanto escutava
atento, ele desatou a falar:
-Esse lance de bater carteira, não
é bolinho, é coisa séria!Tenho muitos anos de janela!Mas, o macete é aplicar
golpes em otários, rende mais, só precisa de um bom papo e pronto, o vacilão caí
que nem patinho!Então resolvi interrompê-lo, e comecei
a questioná-lo:
-Como é o seu nome?Indago. Meio
ressabiado, mas não perdendo a pose, ele responde:
-Eu sou João Lapinha, mas pode me chamar
de "Boca-Mole"! Sou um cara
maneiro, pintoso, sempre fui muito bem quisto pelo mulherio. Agora estou
entregue às traças. E matando cachorro a grito. Mas, um dia eu vou sair dessa
vida. Nasci pra ser tratado a pão-de-ló. E, no entanto, estou só me dando mal.
Um dia eu tiro o pé da merda. Juro por essa luz que me
ilumina!Completou.
Torno a
inquiri-lo:
-Qual o motivo da consulta?Ocorre
uma longa pausa, mas enfim responde:
-Sabe Doutor... Dizem que sou
epilético... Quando tenho uma crise,dizem que eu me debato,reviro os olhos e a
boca fica espumando, igual a cachorro louco!
É assim mesmo?Pergunta
ele.
-Sr. João, as convulsões causam
movimentos involuntários em ambos os lados do corpo, resultando na contração
súbita dos músculos, que são os espasmos musculares, e como envolvem a perda do
controle muscular, fazem a pessoa desmaiar ou cair. Sendo acompanhada pelos
sinais de aumento da produção de saliva e olhar fixos dos olhos.
Entendeu?Perguntei.
-Mais ou menos!Retrucou meio
desconfiado.
-Explico melhor: Epilepsia é uma
doença neurológica crônica, podendo ser progressiva em muitos casos. E é
caracterizada por crises convulsivas recorrentes!Continuei minha
explicação:
-Uma crise convulsiva é uma
descarga elétrica cerebral desorganizada que se propaga para todas as regiões do
cérebro, levando a uma alteração de toda atividade cerebral. Podendo ocorrer
alterações motoras, nas quais os indivíduos apresentam movimentos de flexão e
extensão dos mais variados grupos musculares, além de alterações sensoriais, e
ser acompanhada de perda de consciência e perda do controle esfincteriano.
Concluí.
-Ah... Isso eu sei, o sujeito fica
todo mijado e cagado!E riu, para em seguida perguntar:
-Eu tenho esse troço? Tem
cura?Porque eu tomo o remédio há muito tempo e até agora não
melhorei!Apressei-me a responder:
-O tratamento da epilepsia é
realizado através de medicamentos que controlam a atividade anormal dos
neurônios, diminuindo as cargas cerebrais anormais. Resultando no controle das
crises ou à diminuição da freqüência e intensidade das
mesmas!
-Então receita para mim este santo
remédio, que eu quero ficar bom logo!Respondeu.
-Antes o senhor terá que
submeter-se à um exame físico e neurológico completo. Em seguida
solicitarei exames laboratoriais de praxe (hemograma completo, glicemia,
cálcio, uréia, etc.). E também um E.E.G. - Ele não se conteve e
desabafou:
-O senhor esta zoando com a minha
cara?...Esta de sacanagem comigo?Vai me dizer que tudo isso é preciso para o
senhor me dar uma simples receitinha?Indagou. Minha resposta foi
lacônica:
-Sim!Ele no entanto, restringiu a
resmungar baixinho:
-Que saco!
Fiz-me de desentendido e continuei
meu exame neurológico e em seguida solicitei os exames complementares
necessários, e por fim prescrevi o tão aguardado anticonvulsivante!De posse da
receita, ele exclamou:
-Bendito remedinho! Se não
funcionar, eu sei que pelo menos dá sono!Obrigado, Doutor!
Foi novamente algemado,
levantou-se da cadeira e foi conduzido pelo guarda até a saída,mas parou,pensou
e voltou. E agachando-se até mim, confidenciou-me
baixinho:
-Doutor eu não tenho a tal doença,
eu simulo os ataques, para poder sair da cadeia de vez em quando e respirar um
ar de liberdade!(Soltou uma sonora gargalhada.)E foi-se embora...Quanto a
mim: Fiquei boquiaberto!
Assinar:
Postagens (Atom)






