sexta-feira, 18 de maio de 2012

BLOG: "EMPILHANDO PALAVRAS" UM ESPAÇO PARA CRÔNICAS!

ORIGEM DA CRÔNICA:Vem de Cronos, deus da mitologia grega cujo nome significa “o Tempo”.



Nos seus primórdios a crônica era uma narração de fatos históricos em ordem cronológica. Começou a desvincular-se da História com o avanço do jornal como veículo de informação e entretenimento. No seu livro Crônico – Uma aventura diária, o jornalista gaúcho Luís Peazê registra que foi o semanário inglês The Tattler (O Fofoqueiro ou O Tagarela), fundado em 1709 pelos escritores ingleses Joseph Addison e Richard Steele, o introdutor da crônica na imprensa, por publicar somente textos curtos, em artigos literários e políticos com reflexões morais.Cem anos após o lançamento do The Tattler, o Journal des Débats, de Paris, iniciaria a publicação da crônica diária em sua primeira página, abaixo de uma linha que a destacava das notícias.Então crônica e jornalismo passaram a ser indissociáveis, através dos tempos. 
 
Bem-vindo(a) Internauta!Este Blog (Empilhando Palavras) pretende ser um espaço para crônicas e disseminação de literatura.No Brasil,a crônica foi implantada definitivamente na imprensa carioca a partir do ano de 1850, já voltada para a descrição maliciosa da vida mundana e os fatos políticos do Rio de Janeiro. A partir da segunda metade do século 20, chegaria a se tornar o mais jornalístico dos gêneros literários e o mais literário dos gêneros jornalísticos, passando a parecer uma invenção brasileira. Mas naveguemos ao seu remoto passado.Essa volta no tempo nos levará às esquinas do Rio de Janeiro entre as últimas décadas do século 19 e as primeiras do século 20. Era ali que se postavam sumidades como José de Alencar, Machado de Assis, e Olavo Bilac , para observar a alma encantadora de suas ruas. Depois desses, surgiria outra geração de cronistas que fariam o gênero crescer e aparecer com uma força extraordinária. Foram eles: Rubem Braga, Fernando Sabino, Rachel de Queirós, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Antônio Maria, Carlos Heitor Cony – que por sua vez viriam a ter os seus seguidores. Alguns nomes: Luís Fernando Veríssimo, Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, Moacyr Scliar, Marina Colasanti, Affonso Romano de Sant’Anna.E estes são apenas alguns nomes que fizeram e fazem a crônica parecer
coisa nossa,com marca de origem e carimbo de autenticidade nacional.Acesse os arquivos deste Blog e...
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         Boa leitura,
 
 

Crônica do Livro:"CAUSOS" CLÍNICOS

                                      CRÔNICA: "FRAGMENTOS DE UMA DESPEDIDA"

                                                                                                        Autor:Fernando Ortiz
 
 
Não faz tanto tempo, foram exatos 11 anos e 10 meses que conheci meu amiguinho da espécie canina e da raça schnauzer, que o chamamos de Nick. Lembro-me que eu e minha esposa tomamos esta decisão, para trazer companhia ao nosso filho, na ocasião uma criança de seis anos de idade. E posteriormente descobrimos que ele se transformaria em grande companheiro para todos, especialmente para mim.
Recordo-me como se fosse ontem as suas travessuras,quando ainda tinha seis meses de idade,adorava morder e destruir os chinelos de todos.E não adiantava a "bronca" que levava.Descuidávamos um pouco,e lá ia ele morder e destruir um novo chinelo.Ele dormia em sua caminha,mas no nosso quarto.E todas noites ele vinha até ao meu lado da cama e com a patinha me acordava.Não havia dúvidas ele estava com vontade de fazer "xixi".E bastava eu abrir a porta do quarto,e ele saia correndo até o jornal estendido na área de serviço para fazer o seu "xixi"(sempre foi muito higiênico,aprendeu rápido a fazer suas necessidades nos lugares determinados).Depois com olhar de gratidão retornava para sua caminha e eu para a minha.Isso foram várias vezes em vida.Não adiantava eu deixar a porta do quarto aberta ,pois assim mesmo ele me chamava para o seu "xixi" noturno.Porque eu e não minha esposa?Isso ele nunca me explicou.
Tinha uma personalidade amigável e inteligência notável.Sempre afetuoso e simpático,sentia-se quase um humano.
Quando passei muitas vezes à noite em claro, escrevendo meu livro. Ele por livre e espontânea vontade permanecia ao meu lado, e não adiantava a minha esposa chamá-lo, ele resistia e permanecia ao meu lado.
Na verdade, o meu amiguinho subia numa cadeira e debruçava-se sobre a minha mesa de trabalho e ali permanecia por horas afio,observando-me enquanto eu digitava o livro. E isso levou seis longos meses. E ele sempre ao meu lado madrugada adentro.
Quando saíamos para trabalhar ou mesmo para fazer compras no supermercado, bastávamos a nossa volta para sermos recebidos com acalorada recepção por parte dele, eram incontáveis pulos de alegria e manifestações de contentamento com a nossa chegada. Todos os dias era a mesma situação, bastávamos sair para que na volta fossemos recepcionados com festa pelo nosso "lobinho”. Ele fazia-me sentir o verdadeiro lobo alfa daquela matilha, ou seja, da família.
Ele cativava por captar o "espírito" da casa e entrar no nosso ritmo de vida, deixando-se influenciar pelo nosso temperamento.Gostava de participar do nosso cotidiano.
Algumas vezes que me sentia triste e aborrecido com determinada situação, lá estava ele para consolar-me. Permanecia ao meu lado, fitando-me e com o olhar parecia que compreendia meu sofrimento.Adorava companhia, detestava ficar só e, por isso, procurava ficar no mesmo ambiente da casa onde havia uma pessoa,de preferência minha esposa.Na ausência dela, permanecia ao lado da porta da rua, esperando pacientemente a sua volta. Atitude esta que gerou um comentário dela:
-Fernando, você reparou que o Nick, parece que divide seus sentimentos. Se você se ausenta não basta minha companhia, ele se posta diante da porta esperando por você. E quando sou eu é a mesma coisa. Ele só esta feliz com a presença de nós dois!Tive que concordar. O nosso cãozinho tinha de fato uma fidelidade inquestionável.
Se estivéssemos em casa assistindo TV, ele permanecia ao nosso lado deitado no tapete da sala, como se estivesse assistindo a TV também. Era um companheiro inseparável.
Quando viajávamos ele escolhia a janela do carro para colocar a cabecinha para fora e ficar tomando o vento na sua carinha peluda!
Tinha um gênio irascível, se não gostava de alguma coisa rosnava e não adiantava insistir que talvez ele mordesse!Nunca tentamos passar deste limite para não testar seus afiados caninos!Não gostava de ser escovado, não gostava de ser agarrado, para tomar banho era uma briga, pois ele relutava em ir. E para dar uma lambidinha em sinal de gratidão como outros cães fazem era raridade. Mas não importa gostávamos dele do jeito que ele era!E ele se relacionava muito bem com a gente. Sempre alegre e brincalhão.Mesmo com a idade mais avançada,foi sempre um grande companheiro.
E foram exatos 11 anos e 10 meses de convivência. Mesmo portador de diabetes e cego, ele se adaptava as adversidades, lutava com tenacidade contra a doença.Tinha uma grande vontade de viver, e nos brindava todos os dias com exemplos de perseverança e superação. Até que um dia, já debilitado com a doença que o consumiu, ele era também portador de um mastocitoma, não resistiu, e foi acometido por um fulminante ataque cardíaco. Deu um sussurrado grunhido e foi-se. Não deu tempo para despedidas.Em silêncio e sem alardes, nosso grande amigo partiu. Na verdade era um anjo disfarçado de amigo. Era puro e inocente. E fez nossa vida colorida e recheada de beleza.
Quero ter eternamente sua amizade. Até aqui viajamos juntos. Mas você nos deixou, seguindo outro caminho. Embora assim quisesse o destino. Leve nossa saudade e a nossa esperança de um reencontro. Adeus meu amigo Nick!
(20/07/2000-12/05/2012).

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Crônica do Livro:"CAUSOS" CLÍNICOS


                CRÔNICA: "REMINISCÊNCIAS  DA  INFÂNCIA"

                                                                        Autor:Fernando Ortiz                                                                                        


Foto da Maria Louca
Lembro-me, tinha aproximadamente uns cinco anos de idade. Usava calças curtas com suspensórios e ficava sempre debruçado sobre uma janela que se abria para rua, assim com ajuda de uma cadeira a qual me apoiava, eu passava horas do dia espiando os movimentos dos transeuntes que passavam. Carros naquela época eram escassos, mas pessoas transitando eram muitas. E eu ficava fascinado com minha diversão, pois descobria diversos tipos de pessoas, até então desconhecidas para mim. Enfim, descobria o mundo além dos rostos conhecidos da minha família. E eis que me deparei certa vez com uma mulher com os cabelos desgrenhados, que vinha caminhando do outro lado da calçada, toda maltrapilha, com uma expressão de botar medo, gesticulava muito e falava sozinha. Quando avistei esta figura horripilante, estremeci dos pés a cabeça, e minha reação de imediato foi fechar a janela e esconder-me debaixo da cama até o medo passar. Contei o fato para vó “Mariquinha”, apelido carinhoso de Dona Maria de Moura Neves (minha avó), que de pronto aconselhou-me para afastar-me de tal mulher, pois tratava-se da temível "Maria Louca",raptora de crianças.Isso encheu-me de mais medo e temor!
Minha avó percebendo meu abalo emocional abraçou-me e cobriu-me de beijos, acolhendo-me em seu aconchegante e doce colo. E eu fiquei aninhado por horas até  sentir-me bem novamente.
Minha avó dizia em alto e bom som que era seu "porretinho”, pois ela tinha dificuldade para caminhar, então ela se apoiava em mim. E assim me levava com ela em suas visitas à suas amigas, nestes encontros elas conversavam muito sobre a vida e a família. Toda esta conversa era permeada por chá e biscoitos, estes eram os meus prediletos. Na maior parte do tempo, permanecia quieto e calado!E essa atitude, era elogiada pelas amigas de minha avó!Vezes e outras eu era tentado pela minha curiosidade a mexer nos objetos ao meu redor! Certa vez na casa de uma amiga de minha avó, Dona Belinha, fiquei tentado a tocar num vaso de porcelana. Na mesma hora, a tal senhora chamou minha atenção e sem que minha avó percebesse aplicou-me vários beliscões no braço. Lembro-me até hoje que doeu muito, contive meu choro, mas as lagrimas foram inevitáveis e minha avó não se deu conta da situação!E toda vez que ela resolvia voltar a visitar esta senhora eu relutava em ir!Chorava muito e argumentava que na casa daquela senhora eu não voltaria nunca mais!Minha avó ficava sem entender minha atitude e eu jamais lhe contei o motivo!
Ela me levava também às missas, eram todos os dias. E eu permanecia muitas vezes em pé por horas, por falta de lugar para sentar. Outras vezes sentava-me no colo de minha avó. Mas, a ida às missas para mim era a maior amolação, pois eu não entendia nada que o padre dizia, pois a pregação era toda dita em latim. Isso era uma chatice!Minha avó percebendo este fato resolveu a questão, subornando-me com um bolinho chamado "Mãe Benta”, que ela adquiria numa padaria próxima e me ofertava após as missas!Assim eu passei a acompanhá-la as missas sem reclamar!Enfim, eu era seu "porretinho" e um grande apreciador de "Mãe Benta"!
Certa vez, minha avó precisando ir à padaria que ficava a um quarteirão de nossa casa, deixou a porta entreaberta, e aconselhou-me que não saísse em hipótese nenhuma para rua, e que eu ficasse tranquilo que ela voltaria em instantes, naquele dia estava somente eu e ela em nossa casa!Assim eu fiz, fiquei sentado no sofá de casa aguardando a volta de minha avó!Após angustiosos minutos de espera, tocaram a campanhia!Pensei com meus botões: A porta está semi-aberta, porque estaria minha avó tocando a campainha?Mas levado pela alegria de vê-la novamente, corri até a porta e a abri por completo!E tive a maior decepção, pois de frente para mim estava a "Maria Louca”, que me indagou: Têm alguém em casa moleque?Estremeci por completo, o medo tomou conta de mim, imediatamente meu coração disparou e não pensei duas vezes corri para o interior da casa e me escondi debaixo da cama dos meus pais e ali permaneci. Ouvi os passos daquela mulher invadindo a casa, e ela passou pelo quarto e caminhou até a cozinha. Mexeu nas panelas!E em seguida passou a procurar-me pela casa e dizia: Vou te pegar menino!Esteja onde estiver seu danado!
Logo me avistou debaixo da cama, e estendeu sua mão para puxar-me pelas pernas,vivi momentos de terror,fiquei paralisado de medo!Até que a "Maria Louca” conseguiu agarrar-me por uma perna e me arrastou-me até a porta da minha casa!E segurando forte pelo meu braço levou-me para rua!Gritei por socorro diversas vezes... Na esperança que algum vizinho ouvisse!Quanto mais eu gritava mais ela gargalhava!E assim foi me levando para longe de minha casa. Estava rouco de tanto gritar,quando o dono do bar ,que ficava na esquina de casa, arrancou-me bruscamente dos braços daquela doida e segurou-me no colo, protegendo-me! E com safanões e palavrões afastou aquela mulher para longe de mim!Entre choro e soluços,ele me acalmou,segurando na minha mão levou-me de volta para minha casa!No caminho encontramos com minha avó que já vinha ao meu encontro, também em prantos!E perguntava ela: Onde você estava Fernandinho?
O homem que me salvará das mãos daquela mulher, explicou o sucedido para minha avó!Ela surpresa,comovida agradeceu e ainda em prantos abraçou-me e beijou-me e acolheu-me em seu aconchegante colo e disse-me baixinho: Perdoe sua avó, Fernandinho!E pediu-me para guardar segredo deste fato!
Somente agora após 50 anos de sua morte estou tornando público este acontecido!Perdoe-me pela indiscrição vó “Mariquinha”!       

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Crônica do Livro:"CAUSOS" CLÍNICOS


                                 CRÔNICA:"VIDA DE CÃO"
                                                                                                                                                                                                                                                                    Autor:Fernando Ortiz



Cão Lélo

Tenho o costume de abastecer o meu veículo sempre no mesmo posto de gasolina, sendo assim escuto muitas histórias contadas pelos frentistas. E uma delas chamou minha atenção, dizia um frentista na ocasião, que um cão vagava todos os dias pelas redondezas do posto. E contava, ele:

-Doutor, existe um cão de cor amarela, de grande porte, raça indefinida, quero dizer vira-lata!Vem sempre ao posto, e o interessante é que toda vez que avista um carro de polícia ele late insistentemente para a viatura e para os policiais!Que coincidência! Olhe ele ali, não é mesmo grande e amarelo?
Vi o cão e concordei. E ele continuou: Parece que ele tem bronca dos guardas, não é mesmo?
-Eu acho que ele guarda na memória algum tipo de maus tratos que sofreu!Retruquei.
-Pode ser Doutor!Disse e continuou a história:
-Contam que o "Lélo”, nos o chamamos assim, pois é... Ele pertencia a um sujeito que morava naquela casa de esquina, vizinha ao posto... Certa vez este cara foi preso pela polícia devido a algum delito que cometeu, e o cão presenciou o fato... Como ele resistiu à prisão, os policiais tiveram que utilizar a força para prendê-lo, o cão tentou protegê-lo, mas foi impedido pelos guardas!Desde então sem dono e sem lar, o cão vaga pelas ruas e pernoita no posto!E o interessante que este local é próximo a casa onde antes morava!De repente ele interrompe:
-Doutor, eu estou contando a história do cão para o senhor, mas olha ele latindo para a viatura policial que esta passando na rua neste momento!
-É mesmo, você tem razão!Concordei. E logo avistei o cão latindo para os policiais.
-É como eu disse Doutor, o danado do cão é invocado com uma viatura policial! Tentei explicar:
-Os animais de estimação, principalmente os cães, podem ficar "aborrecidos" como crianças quando expostos a situações de conflito!
-É mesmo, Doutor?Continuei com as minhas argumentações: 
-Os cães são capazes de ter empatia com os humanos a ponto de compartilhar as mesmas emoções de seus donos!E isso justifica o comportamento deste cão atualmente! 
-Poxa, Doutor!Exclamou ele. E eu continuei:
-Ele está demonstrando descontentamento com os guardas, por alguma experiência negativa vivida anteriormente!Essa atitude vai além de uma simples cópia do comportamento humano, pois eles são afetados física e emocionalmente quando expostos a situação de stress. Eles também possuem a habilidade de esboçar reações em situações reais de conflito.
-Então isso explica ele ter tanta bronca de policiais!Deduziu ele.
-É o que parece!Concluí.
-E como é que o Doutor sendo médico de gente entende tanto de animais!Perguntou.
-A questão não é essa, eu aprendi a conhecê-los para respeitá-los!E hoje sou um admirador destes fabulosos animais, altamente sociais e cooperativos! 
Em seguida, desci do meu carro e caminhei em direção ao cão. Ao aproximar-me afaguei sua cabeça e disse em tom amigável:
-Bom garoto!Ele abanou o rabo e lambeu-me em retribuição.
Mas, logo começou a rosnar. Estranhei e virei para trás, deparei-me com um policial, que disse:
-Doutor, o senhor está dando atenção para um cachorro de meliante?Argumentei que isso não era importante.
-O mais importante é a vida deste animal!Ele riu e completou:
-Deixe disso, Doutor!Esse cão é somente mais um vira-lata, igual a este tem muitos por aí!Disse.
Enquanto o policial falava, observei que o cão se aproximou da viatura e num ato de bravura com misto de vingança, levantou a pata traseira e sem cerimônias urinou no pneu da viatura. Esbocei um sorriso e respondi ao guarda:
-Mas é isso que faz dele um cão especial, não tem casa, nem alimento, nem tampouco um dono!Portanto, a partir de hoje vou adotá-lo!Retruquei.
-Então faça bom proveito, passar bem Doutor!Virou-se e partiu em sua viatura.
Neste instante percebi que com o meu ato, tinha em minha posse, uma vida para proteger e abrigar!E imediatamente "convidei" o "Lélo" a adentrar meu veículo e parti em companhia de meu mais novo amigo rumo a sua nova família.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Crônica do Livro: "CAUSOS" CLÍNICOS



                       CRÔNICA:"A TENEBROSA DO SEXTO ANDAR”

                                                         Autor:Fernando Ortiz 


Dona Clotilde

Enfim, mudei. Mudei de apartamento!Novos ares!Novo ambiente!Lugar arborizado, bem ao meu estilo de vida!

Estou instalado, após uma mudança conturbada, aproveito para relaxar e aproveitar o novo lar. E eis, que sou contemplado com o canto de passarinhos na minha sacada. Perfeito!Não poderia ser melhor. Local silencioso, tranquilo, vizinhos amigáveis!Toda a mobília no seu devido lugar!Fim de semana sem plantões médicos!Aproveito para recostar minha cabeça no travesseiro e tirar uma soneca no meu novo quarto!Estou quase pegando no sono e escuto um barulho semelhante a uma furadeira!Não é possível!Será que alguém desavisado resolveu justamente neste dia furar a parede?Mas é domingo, dia consagrado ao descanso!Não acredito, mas o barulho ensurdecedor continua: RRREEEERRREEEERRREEE!

Levanto imediatamente da cama e enfurecido decido interfonar na portaria e reclamar do sucedido:

-Senhor, acabei de mudar-me para este apartamento e estou tentando descansar neste domingo e sou surpreendido com o barulho insuportável de uma furadeira!Gostaria que o senhor verificasse para mim e aconselhasse esta pessoa a parar!Ao que, retrucou o porteiro:
-Sim, Doutor!Realmente por normas do condomínio, não é permitido fazer barulho no dia de hoje!O senhor sabe de onde vem o barulho?Perguntou ele.
-Claro!É no apartamento acima do meu, talvez o 61?Afirmei.
-Hii... É do apartamento da Dona Clotilde, uma senhora encrenqueira, mas vou dar um jeito!
Minutos depois, voltou a me ligar:
-Pronto Doutor!Já fiz a reclamação!Agradeci, pois tinha certeza que o silêncio voltaria a reinar.
Estava sossegado pensando com meus botões: Como era bom relaxar e curtir esses momentos de lazer que a vida nos proporciona!Estes momentos deveriam ser mais duradouros!De repente fui interrompido em meus pensamentos por um estridente ruído: RRIIIIIIMM!
Logo identifiquei que se tratava da velha senhora do sexto andar, arrastando móveis em seu apartamento!E o meu sossego havia terminado!
E mais: RRIIIIMMM, o barulho estridente continuava sem dar tréguas, e novamente: RRIIIIMMM!
Percebi que aquilo não teria fim, portanto, resolvi de novo interfonar para a portaria do prédio pedindo providências:
-Senhor Lopes, sou morador do apartamento 51, estou novamente ligando para comunicar, que a senhora do 61 continua fazendo barulho.Desta vez ela foi longe demais,esta arrastando móveis em seu apartamento,não permitindo que eu descanse...O barulho é intolerável! Peço que tome providências!
-Hii... Doutor!De novo, agora a coisa complicou é encrenca na certa... A Dona Clotilde é uma velha muito ranzinza!Vou tentar dar um jeito!
Aguardei, e poucos minutos depois ele interfonou-me:
-Sabe Doutor!A Dona Clotilde pede desculpas pelo incômodo!Até achei meio estranho... Mas, ela disse que isso não iria se repetir!
Fiquei satisfeito com o desfecho da situação, e tratei de acomodar-me em minha cama para dedicar-me a uma merecida soneca.
Comecei a pegar no sono e abruptamente fui despertado com o barulho de contínuas marteladas na parede: TUM!TUM!TUM!
Era óbvio que o barulho vinha do sexto andar!Liguei novamente na portaria e fiz nova reclamação!Então o porteiro me aconselhou:
-Sabe Doutor!Se o senhor quiser pode falar diretamente com ela, basta ligar 54 e em seguida o número do apartamento!
-Tudo bem!Respondi.
E assim fiz: Liguei uma, duas, três, quatro, cinco, seis vezes!E em nenhuma destas vezes, ela não atendeu o interfone.
Então resolvi decidir esta situação pessoalmente!E fui bater na porta da moradora do apartamento 61!Bati insistentemente, e nada!Bati novamente e nada!Tentei a campainha!Nada!Cheguei a pensar que ela havia saído, mas não! Na certa não queria atender a porta! Talvez, envergonhada com a sua atitude?Volto ao meu apartamento e tento novamente cochilar.
Sou surpreendido com uma série de ruídos: RRREEEERRREEEERRREEE! TUM!TUM!TUM!RRREEERRREEEEERRREEE!
Não acredito, fui direto ao interfone:
-Senhor Lopes, a velhota voltou à carga!Não é possível!O barulho é ensurdecedor!Ele ficou mudo... De repente fez um silêncio:
-Senhor Lopes, Senhor Lopes, parece que ela parou!Não ouço mais nenhum barulho!
Até que enfim, pensei. Mas, não iria durar muito! E em seguida adormeci. Após um tempo, ouço: CATAPLAM!Acordo assustado e olho o relógio, já era meia-noite! 
Parece que alguém bateu uma porta?Penso. Instante depois toca o interfone, era o Senhor Lopes, meio esbaforido,que diz:
-Doutor, Dona Clotilde passou agora pela portaria, e disse-me que iria dormir na casa de sua filha!Agradeci e respirei aliviado, enfim ficaria em paz e com certeza, teria  uma tranquila noite de sono!
Após um domingo cansativo, exaustivo!Levanto na manhã seguinte e apronto-me para sair, pois iria começar nesta 2ª Feira uma nova maratona de plantões. Chego ao hospital e dirijo-me ao consultório, neste momento adentra a sala uma senhora idosa, baixinha e com cara de poucos amigos.
Li o seu prontuário sobre minha mesa, e constatei surpreso que os dados daquela senhora coincidiam com o meu endereço: Rua Floriano Peixoto Nº 789 - Apartamento: 61.
Portanto, um andar acima do meu!E mais surpreso fiquei, quando li o seu nome: Clotilde... Não tinha dúvidas eu estava frente a frente com a tenebrosa do sexto andar, a terrível perturbadora do sossego alheio: Dona Clotilde em carne e ossos!Antes que eu pudesse esboçar alguma reação, ela foi logo dizendo:
-Doutor, eu não tenho muito tempo a perder, passei um domingo de cão!Um novo vizinho que acabou de se mudar no meu prédio me perturbou o dia inteiro com suas ligações ao meu apartamento. Eu sou uma mulher viúva. Sei lá, o que esse tarado queria!Só sei que isso me deixou muito perturbada!Acredite, tive que dormir na casa de minha filha!Receite logo, um tranquilizante para mim!

Tentei argumentar,desisti.                                                                                                          

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Crônica do Livro: "CAUSOS" CLÍNICOS


                                  CRÔNICA:"ENFIM...SÓ!" 

 

                                                                               Autor:Fernando Ortiz


Segundo domingo de Maio,”Dia das Mães”!Mais uma data inventada pelo comércio para aumentar as vendas... E como faturam, as lojas ficam pululando de gente, todos à procura de uma lembrancinha para suas respectivas mães! É bonito de se ver... Mas, triste ao mesmo tempo... Não tenho mais mãe... Não tenho com quem festejar este dia!Afinal, nos somos tomados por uma enxurrada de comerciais de TV, que acabamos sendo contaminados!
Eis a questão, com quem comemorar? Minha companheira saiu para comemorar esta data com sua mãe, ambas foram almoçar juntas neste domingo, não fui convidado, também pudera trata-se de almoçar com a sogra... E sogra não é mãe!Vou ter que me virar na cozinha, talvez o velho e bom sanduíche, que nunca me abandona, sempre esta lá na geladeira esperando a oportunidade para saciar minha fome, será minha opção!
Fico imaginando que ele é um suculento inhoque... Pronto, estamos resolvidos!
Mas, minha data irá chegar ”Dia dos Pais”, sou pai de dois meninos!
Neste dia (mais uma data comercial) serei cultuado, reverenciado... Todos estarão me convidando para almoçar, ganharei presentes, será inesquecível!
Há um empecilho... Meus filhos são de mães diferentes, mas posso contornar a situação, almoçarei somente com os dois, sem a presença das referidas mães!
Decidido, basta comunicar a ambos!
Não deu certo! Acabo de ser avisado que meus filhos irão “festejar” o “Dia dos Pais”, com seus respectivos padrastos... Alegaram que neste dia não poderão abandonar, quem de fato os criaram!
Senti-me o último dos homens! Fui reduzido à mera contribuição biológica!
Terei que abastecer a geladeira... Mais uma data comemorativa que comerei sanduíche e sozinho!

Crônica do Livro: "CAUSOS" CLÍNICOS




                 Crônica: ”História de uma crise convulsiva”


                                                        Autor:Fernando Ortiz




João Lapinha
Era um final de tarde quente, inicio de mais um plantão médico. Na minha tez escorria uma fina gota de suor, mas já havia marca do mesmo na minha  camisa, demarcando a região das axilas.
Eis que adentra o consultório um homem algemado e escoltado por um guarda. Olho com espanto, mas logo o policial se apressa em explicar:
-Doutor, eu estou escoltando o preso para sua consulta rotineira!
Olho para aquele homem cabisbaixo e logo retruco:
-O senhor poderia fazer a gentileza de soltar as algemas para que eu possa examiná-lo?
-Sim, Doutor!Ele não representa nenhum perigo, trata-se de um tremendo "171"!Mas, cuidado com a carteira!O vagabundo é especialista em bater carteiras!Advertiu o guarda em tom jocoso, para em seguida abrir as algemas. O homem sentindo-se mais à vontade, esfrega as mãos, coça a cabeça e esboça um sorriso amarelo. E resolve contar sua história:
-Doutor, entrei nesta vida porque estava na pior.Parece que eu nasci com o urubu plantado no meu destino. Daí, já viu.não tive outro jeito...comecei a bater umas carteiras e aplicar uns pequenos golpes nos otários...E como tem otário neste mundo!!E continuou:
-Até que uma madame,vítima de um golpe que eu apliquei,resolveu bater com a língua nos dentes e me caguetou para os homens!Fui pego com a boca na botija. E acabei em cana!Enquanto escutava atento, ele desatou a falar:
-Esse lance de bater carteira, não é bolinho, é coisa séria!Tenho muitos anos de janela!Mas, o macete é aplicar golpes em otários, rende mais, só precisa de um bom papo e pronto, o vacilão caí que nem patinho!Então resolvi interrompê-lo, e comecei a questioná-lo:
-Como é o seu nome?Indago. Meio ressabiado, mas não perdendo a pose, ele responde:
-Eu sou João Lapinha, mas pode me chamar de "Boca-Mole"! Sou um cara maneiro, pintoso, sempre fui muito bem quisto pelo mulherio. Agora estou entregue às traças. E matando cachorro a grito. Mas, um dia eu vou sair dessa vida. Nasci pra ser tratado a pão-de-ló. E, no entanto, estou só me dando mal. Um dia eu tiro o pé da merda. Juro por essa luz que me ilumina!Completou.
 Torno a inquiri-lo:
-Qual o motivo da consulta?Ocorre uma longa pausa, mas enfim responde:
-Sabe Doutor... Dizem que sou epilético... Quando tenho uma crise,dizem que eu me debato,reviro os olhos e a boca fica espumando, igual a cachorro louco!
É assim mesmo?Pergunta ele.
-Sr. João, as convulsões causam movimentos involuntários em ambos os lados do corpo, resultando na contração súbita dos músculos, que são os espasmos musculares, e como envolvem a perda do controle muscular, fazem a pessoa desmaiar ou cair. Sendo acompanhada pelos sinais de aumento da produção de saliva e olhar fixos dos olhos. Entendeu?Perguntei.
-Mais ou menos!Retrucou meio desconfiado.
-Explico melhor: Epilepsia é uma doença neurológica crônica, podendo ser progressiva em muitos casos. E é caracterizada por crises convulsivas recorrentes!Continuei minha explicação:
-Uma crise convulsiva é uma descarga elétrica cerebral desorganizada que se propaga para todas as regiões do cérebro, levando a uma alteração de toda atividade cerebral. Podendo ocorrer alterações motoras, nas quais os indivíduos apresentam movimentos de flexão e extensão dos mais variados grupos musculares, além de alterações sensoriais, e ser acompanhada de perda de consciência e perda do controle esfincteriano. Concluí.
-Ah... Isso eu sei, o sujeito fica todo mijado e cagado!E riu, para em seguida perguntar:
-Eu tenho esse troço? Tem cura?Porque eu tomo o remédio há muito tempo e até agora não melhorei!Apressei-me a responder:
-O tratamento da epilepsia é realizado através de medicamentos que controlam a atividade anormal dos neurônios, diminuindo as cargas cerebrais anormais. Resultando no controle das crises ou à diminuição da freqüência e intensidade das mesmas!
-Então receita para mim este santo remédio, que eu quero ficar bom logo!Respondeu.
-Antes o senhor terá que submeter-se à  um exame físico e neurológico completo. Em seguida solicitarei  exames laboratoriais de praxe (hemograma completo, glicemia, cálcio, uréia, etc.). E também um E.E.G. - Ele não se conteve e desabafou:
-O senhor esta zoando com a minha cara?...Esta de brincadeira comigo?Vai me dizer que tudo isso é preciso para o senhor me dar uma simples receitinha?Indagou. Minha resposta foi lacônica:
-Sim!Ele no entanto, restringiu a resmungar baixinho:
-Que saco!
Fiz-me de desentendido e continuei meu exame neurológico e em seguida solicitei os exames complementares necessários, e por fim prescrevi o tão aguardado anticonvulsivante!De posse da receita, ele exclamou:
-Bendito remedinho! Se não funcionar, eu sei que pelo menos dá sono!Obrigado, Doutor!
Foi novamente algemado, levantou-se da cadeira e foi conduzido pelo guarda até a saída,mas parou,pensou e voltou. E agachando-se  até mim, confidenciou-me baixinho:
-Doutor eu não tenho a tal doença, eu simulo os ataques, para poder sair da cadeia de vez em quando e respirar um ar de liberdade!(Soltou uma sonora gargalhada.)E foi-se embora...Quanto a mim: Fiquei boquiaberto!