domingo, 5 de dezembro de 2010

CRÔNICA:"Dois velhinhos"


Autor:Dalton Trevisan


Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.

Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.

Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:

— Um cachorro ergue a perninha no poste.

Mais tarde:

— Uma menina de vestido branco pulando corda.

Ou ainda:

— Agora é um enterro de luxo.

Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.

Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.

Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.

CRÔNICA:"As Loucuras do Minotauro"


Autor:Dalton Trevisan

Sabe que toda família curitibana tem um louquinho fechado no porão?
...
Não. Sente no sofá. Aqui é melhor.
Estou com pressa doutor. 
É loiro natural teu cabelo?
Clareio com xampu.
Pensou na minha proposta?
Não vim aqui para isso.
De fato. É que a assinatura na procuração não confere.
Uns rabinhos que inventei. Para enfeitar. Só de nervosa.

Pego na mãozinha
ela deixa.
O que eu quero é isso. Por mim ficava a manhã inteira. Namorando você.  Mãozinha dada. É o que me basta.

Longe o olhinho azul, quem está enjoada de ouvir elogio.

Me achego e beijo a face
sem pintura, que maravilha. Fagueira penugem de nêspera madurinha.

Na boquinha? Bem de leve.
Não.
Hoje está cheirosa.

Perfumou-se para vir aqui. Mais indiferente que pareça.

É francês.
Nem precisa. Já viu macieira iluminada em flor toda suspirosa de abelha?
É você.

...
Me conte a tua vida. Disse que trabalha desde os onze anos. O que aconteceu nos últimos dez?
Primeiro a mãe veio morar aqui. Viúva, uma tropa de filhos. De oito sou a terceira. Ela não se acostumou. Daí eu fiquei. Como um traste esquecido.
Morava com quem?
Na casa de outra menina.
Pagava com meu trabalhinho. Na vida nada é de graça. Daí fui mudando de emprego. E hoje aqui estou. Sofrida e triste.
Esses anos terão sido difíceis. Não quer ou não gosta de falar? A palma de tua mão está úmida. Será de aflita?

Os dedos entrelaçados, vez em quando os aperto
uma em cinco ela responde.
Acho que sim.
De mim não tenha medo.
E hei de ter?
Já que não fala de tua vida. Me conte como você é. Que mãozinha linda. Quanto você tem de quadril?

Não sei.

Afagando e medindo coxa acima.

Calculo uns noventa.
Emagreci bastante.
E o teu peitinho? Posso pegar?

Alcanço o primeiro botão da blusinha branca, já se defende.

Assim não.
Como será que é? Muita vontade de ver o biquinho.
Igual ao das outras.
Aí que se engana. Cada peitinho é diferente. Um tem o bico mais escuro. Outro durinho e rosado. O teu deve ser assim.
Nunca reparei.
Sabe que um é mais pequeno que outro? Será o teu esquerdo?
...
De uma, o seio raso da taça de champanha. De outra, bojudo copo de conhaque para aquecer na palma da mão.
...
Pensou na minha proposta? Umas poucas de concessões.
Como assim?
Primeiro pego na tua mão. O que já deixou. Isso é bom. Me faz tanto bem.

Não me contenho e agarro uma e outra.

Depois te apalpo. Aqui.

Em delírio apalpo a coxa trêmula.

Daí te beijo. Não esse beijinho na face. Um turbilhão louco de beijos.

E dou um, dois, três. De leve, para não assustar.

Enfim um beijo de língua. Que você retribui.

Dardejo a lingüinha de lagartixa sequiosa debaixo da pedra.

Sabe o que é acabar?
...
Sabe ou não?
Para mim é terminar alguma coisa.
Não é bem isso. Os livros dizem orgasmo. A parte mais gostosa do ato sexual. Já experimentou?
Não sei o que é.
Será que é fria? Ou não achou quem te entendesse. Te iniciasse com doçura e paciência. Sabe o que eu faria?
...
Te ajudava a baixar essa calça azul. Abria as tuas pernas. E com este dedinho acordava o teu vulcão.
Credo, doutor.

Interessada, quem sabe. Um tantinho incrédula.

Nunca mais seria a mesma. Chamaria você de nuvem, anjo, estrela.  O que alguém jamais disse a ninguém. Sabe, Maria?
...
Você é a redonda lua verde do olho amarelo...
Nossa, doutor.
...que, aos cinco anos, desenhei na capa do meu caderno escolar.
...
Mimosa flor com duas tetas. Dália sensitiva com bundinha.
...
Uma empadinha recheada de camarão e premiada com azeitona preta.
...
Já viu canarinha branca se banhando de penas arrepiadas na sua tigela florida?
...
Você faz de mim uma criança com bichas que come terra.
Assim eu encabulo, doutor.
No meio das pernas um botão chamado cli-tó-ris. Ali é que meu dedinho ia bulir.

Cada vez mais afrontada e afogueada.

Depois te beijava da ponta do cabelo até a unha encarnada do pé.  Cada pedacinho  escondido de teu corpo. Afastava essa coxa branquinha de arroz lavado em sete  águas. E me perdia no teu abismo de grandes lábios de rosa.

Agora a mãozinha quente e molhada.

Sou homem de certa idade. Com a minha vivência faria você sentir prazer até no terceiro dedinho do pé esquerdo. De tanto gozo sairia flutuando pela janela sobre os telhados da praça Tiradentes.
...
E virgem, se quiser, você continua.
...
Juro que te respeito. Como está me vendo assim eu fico: todinho vestido. De colete abotoado e gravata. 
...
Até de óculo. Só tiro o paletó. Nenhum perigo para você.
...
Em troca dessa alegria lhe ofereço um prêmio. Duas notas novas.
...
Quer experimentar hoje?
Próxima vez eu resolvo.
Por que não agora? Já está aqui. Tão fácil. Até chovendo. Mais aconchegante.
Hoje, não.
Você que sabe. Só não creio na tua frieza. Tudo me diz que é moça fogosa. Essa boca vermelha e carnuda. É de quem gosta. Mais uma coisa, anjo. Enquanto eu falava, o teu narizinho abria e fechava.
...
Veja. Como está fremente.
...
Ninguém te diz nada? O noivinho não te canta?
Cantar, todos cantam. Eu sei me defender.
Por que a cisma da virgindade? Se gosta dele, algum mal em deitar no sofá?
Prefiro assim. Ele é ciumento. Sempre está brigando.
Monstro moral. Só quer para ele. Já provou beijo de noventa segundos?
Não contei.
Ao teu noivo falta imaginação. Fico um dia inteiro olhando você. De joelho e mão posta.  Louvado essas graças que Deus te deu. Agora um beijinho. Na boca.

Seguro o rosto, forcejo, ela resiste.

Ah, ingrata. Que tamanho o teu pé. Isso você sabe.
Trinta e cinco.
Bonitinho deve ser. Aposto que sem joanete. Sabe que as moças se masturbam? Você não tem experiência? Todas têm. De noite pensa num rapaz bonito e brinca com o dedinho. Nunca fez isso?

Sem resposta.

Teu noivo é bonito?
Nem tanto.
Então algum artista famoso. Deixa ler a palma da mão.

De repente muito curiosa.
Este xis é uma boa notícia. Que não esperava.
O quê?
Rolar comigo no tapete.

Nem sorri.
Você não sonha, amor?
Todos sonham. Eu, ter o meu cantinho.
Não é isso. De olho aberto. Visões eróticas. Em toda família...
É tarde. Preciso ir, doutor.

-- Então me dá um abraço. Assim.

Envolvo-a nos braços. Ela não corresponde.
Ai, me deixa. Beijar essa carinha mais santa.

E osculo as duas faces rosadinhas.

Agora a tua vez.

Um furtivo beijo. Seco, unzinho só.

Aqui o teu presente.
Não posso, doutor.

-
Sabe que toda família curitibana...
Sou moça de princípios.
...tem um louquinho fechado no porão?
Cruzes, doutor.

Ó maldito Minotauro uivando e babando perdido no próprio labirinto.

Me trate de você. Doutor já não sou. Apenas um doidinho manso. De paixão cativo.

Indecisa, morde o beicinho.
De mim o que vai pensar?

Guarda na bolsa as duas notas. E concede o primeiro sorriso.

CRÔNICA:"Criança"



Autor:Dalton Trevisan


Ele sai do banheiro, a toalha na cintura.

— Pai, deixa eu ver o teu rabo.

É a tipinha deslumbrada no baile da debutante de três anos.

— Rabo, filha? Ah, sei. O bumbum do pai?

— Seu bobo.

— ...

— Esse pendurado aí na frente.


oo0oo


O pai telefona para casa:

— Alô?

— ...

Reconhece o silêncio da tipinha. Você liga? Quem fala é você.

— Alô, fofinha.

Nem um som. Criança não é, para ser chamada fofinha. Cinco anos, já viu.

— Oi, filha. Sabe que eu te amo?

— Eu também.

"Puxa, ela nunca disse que me amava".

— Também o quê?

— Eu também amo eu.

CRÔNICA:"Onde estão os Natais de antanho?"



Autor:Dalton Trevisan

Insinua-se pela cortina de veludo vermelho — úmida e pegajosa —, afasta a mão com nojo: filho bastardo do rei Midas, tudo o que toca se desfaz em podridão. No rosto o bafo quente da sala; entre casal suspeito e velho pervertido e o seu abrigo.

Senta-se na última fila, os pés sobre cascas de amendoim, pipoca, papel de bala. Alheio às sombras na tela, enfrentará a passagem do Natal.

Escorraçou-o do bar a celebração ruidosa dos bêbados. Mais que ela, dois olhos aflitos no espelho da parede... Exílio de negridão viciosa, no cinema está defendido. Distingue a tosse do guarda que, vez por outra, circulando no corredor, assusta os casais de tarados. No canto, a lâmpada amarela sobre a cortina que, ao ser erguida, espalha nuvem fétida; pela sua agitação incessante, o interesse do público é mais lavar a mão do que assistir ao filme.

Entorpecido de álcool e do ar corrupto, cabeceia na cadeira dura. Uma voz melíflua pede-lhe docemente licença, enrosca-se no seu joelho — de todas as cadeiras vazias escolhe a do lado.

Sonolento, mal sustém a pálpebra aberta. Mascando e soprando a goma de bola, o mocinho a explode com beijo obsceno.

Patinhas de mosca na face, João espanta-a com a mão. Mosca não, o óculo brilhoso da criatura grudado no seu rosto: uma loira de voz rouca senta-se na cama. Estende a perna roliça, que o tipo lhe descalce o sapato. Ele arranca brutalmente o sapatinho dourado. Não é assim, meu amor, assim não. Repete o mocinho no sopro da bola:

— Não gosto de bruto.

O herói resmunga, a camisa estraçalhada de mil tiros — por amor dela bateu-se com o vilão? A loira estira a outra perna: Não sou a sua gatinha?
— Gatinha não sou? — a queixa lamuriosa ao lado.

Com as duas mãos, o tipo a descalça e beija a ponta do pé. Bem assim, meu amor. Sabe ser gentil.

O olho do mocinho escorre-lhe no rosto — baba fosfórea de lesma —, sem perder a legenda:

— Vai ser gentil, amor?

O durão de pé, a heroína à beira da cama; ergue o vestido de cetim brilhante, desprende a meia da cinta, oferece a linda perna comprida — mão tremente, ele enrola a meia desde a coxa. Raivoso, atira-a no tapete.

— Quieto, benzinho.

— Quietinho, meu bem — a voz aliciadora é sufocada pela tosse do guarda. Pisoteando cascas, novo espectador instala-se duas cadeiras na frente, revolve o pacote de amendoim, chupa frenético o dente.

Estou doente, vou morrer — lamenta-se o machão, atingido pela bomba de cobalto, no deserto de provas ocultou-se da policia. Minha carne é gélida. Bala de revólver não a atravessa metade homem, metade monstro de ferro.

O maníaco do amendoim assobia, o mocinho rumina a bola, João sofre as penas do herói.

Agora a loira corre o fecho do vestido, a nudez entrevista: Eu sou Rosinha. Posso derreter o aço. Sei abrasar o corpo gélido.

— Rosinha... sei abrasar... — insiste o eco suspiroso do mocinho.

Rebenta a bola de goma, esbarra-lhe no joelho e, entre as cadeiras vazias, senta-se ao lado do chupador de dente. Na tela a heroína furiosa rasga a camisa do tipo, descobre o ombro sardento. Unhas rapaces enterram-se — apesar do metal — na carne fofa.

João estremece: uma ratazana ali no corredor? Prestes a levantar-se, enxuga a mão no joelho.

À sua frente cochicha o moço com o vizinho, que deixa de assobiar. João não ergue o pé, e mordendo o uivo, segue a corridinha da ratazana. Virá, em seu passeio tonto, enroscar-se no sapato e atarantada subir na perna?

No silêncio da sala escuta o alarido do peito. O guarda não tosse, o maníaco não assobia, apenas o crepitar das cascas, agora mais perto.

Violado o santuário, outra vez em pânico: uma gota de suor brinca-lhe na pálpebra. Perdido com as vozes sem respostas: Onde está minha casa, minha mulher onde está? E onde estão afinal os Natais de antanho?

Luta com a imagem na tela, repete em voz baixa a legenda. Surgem das cadeiras vazias as filhas, tão pálidas, meu Deus, camisolinha em farrapos, descalças, a vagar gementes no deserto. Chorosa, indaga a menor, sem vê-lo na penumbra: Onde foi papai? Que fim o levou?

Por mais aflito, não pode sair — ainda não, há que esperar a passagem do Natal. Ficará até a explosão da última bomba. Tudo menos o quarto do hotel, medroso de certa gaveta, entre as meias sem pares o brilho da navalha...

Ali no cineminha pode esconder-se de si mesmo. Rei da terra, que foi feito de quem ele era? Sem mover a cabeça, relanceia o olho no corredor: as dores do mundo trazidas no focinho úmido da rata piolhenta.

Espavorido, o pé plantado nas cascas de amendoim — a ratazana que belisca a barra da calça?

Lá fora os sinos, buzinas, gritos de bêbados.

— Outro de menos — resmunga João. — Deste eu estou livre.

Passada a hora pior, eis que é um homem. Está salvo daquele Natal. Outro não haverá antes de um ano inteiro.

CRÔNICA:"Apelo"


Autor:Dalton Trevisan

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate
meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa,Senhora, por favor.

CRÔNICAS:"Ah, É?"

(ministórias)

Autor:Dalton Trevisan


01
Domingo inteiro em pijama, coça o umbigo. Diverte-se com os pequenos anúncios. Em sossego na poltrona, entende as borbulhas do gelo no copo de bebida. Uma velhice tranqüila, regando suas malvas à janela, em manga de camisa. Única dúvida: ganhará o concurso de palavras cruzadas?
02
Rataplã é o gato siamês. Olho todo azul. Magro de tão libidinoso.  Pior que um piá de mão no bolso. Vive no colo, se esfrega e ronrona.

— Você não acredita. Se eu ralho, sai lágrima azul daquele olho.

Hora de sua volta do colégio, ele trepa na cadeira e salta na janela.  Ali à espera, batendo o rabinho na vidraça.

Doente incurável. O veterinário propõe sacrificá-lo. A moça deita-o no colo. Ela mesma enfia a agulha na patinha. E ficam se olhando até o último suspiro nos seus braços. Nem quando o pai se foi ela sentiu tanto.
03
Ao tirar a calcinha, ele rasga.   Puxa com força e rasga.   Vai por cima.  Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor.  Reza que fique por isso mesmo.

Chorando, suando, tremendo, o coração tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé — mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo.  Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbiguinho.

Deita-se sobre ela — e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso na palma da mão. Mas você pára?  Nem ele.
04
Só de vê-la — ó doçura do quindim se derretendo sem morder — o arrepio lancinante no céu da boca.

CRÔNICA:"Grávida porém Virgem"


Autor:Dalton Trevisan

Na volta da lua-de-mel, Maria em lágrimas confessou à mãe que ainda era virgem.

Lembrava dona Sinhara como o noivo se apresentou pálido na igreja, por demais nervoso? Justificou que, filho amoroso, muito se afligia com a mãe doente. No ônibus, a mão suada, e esquecido da noiva, olhava a paisagem.

Primeira noite o varão fracassou vergonhosamente. Foi alegada inexperiência. A estranha palidez na igreja de violenta crise nervosa — a mãe tinha saúde perfeita. Maria iludiu-se que era desastre passageiro. Ai dela, assim não foi: noite após noite João repetiu o fiasco. Arrenegava-se de trapo humano, não tomava banho nem fazia a barba. A pobre moça buscou recuperá-lo para os deveres de estado. Uma noite, envergando a capa pijama, saiu de óculo escuro, a noite inteira entregue às práticas do baixo espiritismo.

— O que me conta, minha filha! Me nego a acreditar. João, um rapaz tão simples, tão dado... Dona Sinhara evocava o noivo delicado e de fina educação.

— É para a senhora ver, mãe!

Dia seguinte ao casamento um tipo esquisito, que vivia aflito. Uma feita e outra feita, submeteu a moça a provas de intimidade, as quais não foram além do ensaio.

Mais que se enfeitasse para agradá-lo, indiferente aos encantos de Maria. De vez em longe, sem resultado, perseguia o impossível ato. Depois a acusava de única culpada. Suspeitando-a de traição com o primeiro noivo, agredida a bofetão e pontapé:

— Tem de apanhar bastante, Maria. Você é uma histérica!

Proibida de pintar a olho, tingir o cabelo, usar saia curta e calça comprida, sem que ele chegasse a conhecer a noivinha.

Pretendia arrastá-la ao suicídio a fim de esconder o seu desastre. Em provocação soprava-lhe no rosto a fumaça do cigarro.

Com a brasa queria marcar-lhe a bochecha para que deixasse de ser vaidosa.

— Por que judia de mim, querido?

— Bem sabe por que, sua cadela!

E, quarenta dias de casada, vinte em viagem e vinte em casa, ali estava Maria, a mais inteira das donzelas.

— Ter uma conversa com esse sujeitinho — bradou furiosa dona Sinhara.

Não era tudo: comprou coleção de fotos pornográficas, obrigada a admirá-las uma por uma. Nem assim prestou-se aos caprichos do noivo — eram quadros imundos e pecaminosos. Suspendendo pelo cabelo ou afogando a garganta, ele a constrangia às suas loucas fantasias. Saciado, era jogada ao chão, dali erguida aos bofetões.

— Ah, o teu pai que saiba... – persignou-se dona Sinhara.

Na volta da lua-de-mel, João em lágrimas confessou à mãe que a noiva não era pura. Desde a primeira noite, mais carinhoso que fosse, acusava-o de trair o seu ideal. Sá havia casado para se livrar dos pais e merecer o título de esposa.

— Por que judia de mim, querida?

— Você não soube ganhar o meu amor.

Ao exigir satisfações, ouviu dela que tinha caspa na sobrancelha. Censurava-o por deixá-la fria e manifestava repulsa física. Se insistia em tomá-la nos braços, atacada dos nervos, atirava-se ao chão em convulsões. Para reanimá-la, sacudia-a gentilmente, batia de leve no rosto.

Não era a ele que amava e sim ao primeiro noivo, de quem se separou por exigência dos pais. Três dias antes do casamento, estivera com a mãe na casa de Joaquim, propusera com ele fugir, mas o outro respondeu que era tarde. Além do mais, segunda dona Sinhara, todos os convites já distribuídos.

Não queria confessar, abrigada revelava toda a verdade — somente nojo sentia por ele, os seus dentes eram amarelos:

— Depois que me beija tenho de cuspir três vezes!

Não saía do espelho, olho pintado, de saía curta ou calça comprida, o cabelo retinto de loiro:

— Nasci para artista. Não mulher de você, una pobretão!

Reclamando de sua presença no leito conjugal, implicava com o assobio do nariz torto de João:

— Vai você ou vou eu para a sala?

Por ter comido salada de cebola — lembrava-se a mãezinha de como gosta de bife sangrento? — forçado a dormir no sofá.

— O que me conta, meu filho! Me nego a acreditar. Maria, moça tão querida, tão dada... Educada no colégio de freiras, toda cuidados com a futura sogra: um beijinho aqui, um abracinho ali.

— É para ver, mãe! Usa roupa de baixo que a senhora não imagina...

Se não a deixasse em paz, Maria acabava seus dias: engolindo vidro moído, escrevia com batom no espelho que era o culpado. Tal intriga fizera para os sogros que, ao visitá-la, conversavam apenas com a filha, nem cumprimentavam o pobre rapaz, como se ausente estivesse. Uma tarde surgiu-lhe o sogro porta adentro, bradando que recolhera a moça descabelada. Queria saber o que lhe fizera para que ficasse tão chorosa. Se era verdade que lhe marcava a coxa, com brasa de cigarro, se lhe surrupiava o dinheiro da bolsa, se ao sair de casa apagava todas as luzes. Sem esperar a resposta, berrou que tinha mais duas filhas para casar e bateu a porta.

— Ter uma conversa com essa sujeitinha — acudiu furiosa dona Mirazinha, com a mão no peito, sofria de palpitação.

Qual a sua surpresa: a náusea da noiva era... de estar...

— Grávida?! — espantou-se dona Sinhara. — Grávida, apesar de virgem?

O incrível resultado de um ato falho do noivo, segundo Maria, tanto bastou para a concepção.

— Grávida?! — surpreendeu-se dona Mirazinha. — E ainda pretende que é virgem?

— Para a senhora ver, mãe, quem ela é. Após a confissão do filho, Maria foi visitada pela sogra:

— Eu vivo para Cristo. Não para o imundo de seu filho!

Após a confissão da filha, João recebeu a visita de dona Sinhara, que se instalou na companhia dos noivos. A moça não deu a menor atenção a João assim não fosse o rei da família. Ele passava o dia no trabalho e, de volta, queria certa liberdade: lá estava a maldita sogra. Negando-se a moça a ir para o quarto, ficavam bocejando na sala diante da televisão, até que dona Sinhara os mandava dormir. Ele não exercia poder sobre a noiva: nem bife sangrento nem cebola na mesa.

Bem desconfiou que ela era amante da própria tia Zezé. Revoltou-se contra a atitude da noiva que, instigada pela mãe, se negava a cumprir o dever conjugal, arrependida de ter casado tão novinha quando podia aproveitar a vida.

Sempre na casa do pai, Maria confidenciava que João dormia a manhã inteira. À tarde, em vez de ir para o emprego, escondido na esquina, espiava se a pobre moça não recolhia o ex-noivo Joaquim. Mostrava uma folha em branco, exigia lhe revelasse o que estava escrito, eram palavras em tinta invisível — bom pretexto para tentar esganá-la a toda custo.

Existe um motivo para o noivo sentir ciúme, pensou dona Sinhara, é não ser o rei da casa. Bradou para Deus e o mundo que João não era homem bastante para sua filha.

O moço confidenciou para a mãe que, na tarde anterior, entrara a noiva batendo a porta (ó família que tanto bate a porta) e gritando bem alto:

— Fomos a uma parteira. Ela provou que sou virgem!

O pobre rapaz discutiu com o sogro que era detalhe para ser esclarecido.

— Quantos anos você tem, João?

— Vinte e três, sim senhor.

— Com essa idade, João, não sente vergonha de uma esposa virgem?

— Virgem, porém grávida.

O velho indignado exigiu a filha de volta. Respondeu João que Maria estava muito bem com ele. O sogro berrou que se retirasse imediatamente, e a partir daquele dia, proibido de pisar nos seus domínios.

Dona Mirazinha perguntou a uma amiga:

— Como vai a grande cadela?

Porque a chamava de cadela, Maria nunca mais foi visitá-la.

Cada um se queixa do outro para a respectiva família. Ora, a família de Maria está ao lado dela. E a família de João ao lado dele. Casados de três para quatro meses e Maria, segundo ela, sempre virgem. Como pode ser, contesta João, se está grávida

Um mistério que até hoje não foi decifrado.