Autor:Fernando Ortiz
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Nick |
Não faz tanto tempo, foram exatos 11
anos e 10 meses que conheci meu amiguinho da espécie canina e da raça schnauzer,
que o chamamos de Nick. Lembro-me que eu e minha esposa tomamos esta decisão,
para trazer companhia ao nosso filho, na ocasião uma criança de seis anos de
idade. E posteriormente descobrimos que ele se transformaria em grande
companheiro para todos, especialmente para mim.
Recordo-me como se fosse ontem as suas
travessuras,quando ainda tinha seis meses de idade,adorava morder e destruir os
chinelos de todos.E não adiantava a "bronca" que levava.Descuidávamos um pouco,e
lá ia ele morder e destruir um novo chinelo.Ele dormia em sua caminha,mas no
nosso quarto.E todas noites ele vinha até ao meu lado da cama e com a patinha me
acordava.Não havia dúvidas ele estava com vontade de fazer "xixi".E bastava eu
abrir a porta do quarto,e ele saia correndo até o jornal estendido na área de
serviço para fazer o seu "xixi"(sempre foi muito higiênico,aprendeu rápido a
fazer suas necessidades nos lugares determinados).Depois com olhar de gratidão
retornava para sua caminha e eu para a minha.Isso foram várias vezes em vida.Não
adiantava eu deixar a porta do quarto aberta ,pois assim mesmo ele me chamava
para o seu "xixi" noturno.Porque eu e não minha esposa?Isso ele nunca me
explicou.
Tinha uma personalidade amigável e
inteligência notável.Sempre afetuoso e simpático,sentia-se quase
um humano.
Quando passei muitas vezes à noite em
claro, escrevendo meu livro. Ele por livre e espontânea vontade permanecia ao
meu lado, e não adiantava a minha esposa chamá-lo, ele resistia e permanecia ao
meu lado.
Na verdade, o meu amiguinho subia numa
cadeira e debruçava-se sobre a minha mesa de trabalho e ali permanecia por horas
afio,observando-me enquanto eu digitava o livro. E isso levou seis longos meses.
E ele sempre ao meu lado madrugada adentro.
Quando saíamos para trabalhar ou mesmo
para fazer compras no supermercado, bastávamos a nossa volta para sermos
recebidos com acalorada recepção por parte dele, eram incontáveis pulos de
alegria e manifestações de contentamento com a nossa chegada. Todos os dias era
a mesma situação, bastávamos sair para que na volta fossemos recepcionados com
festa pelo nosso "lobinho”. Ele fazia-me sentir o verdadeiro lobo alfa da alcatéia, ou seja, da família.
Ele cativava por captar o "espírito"
da casa e entrar no nosso ritmo de vida, deixando-se influenciar pelo nosso
temperamento.Gostava de participar do nosso cotidiano.
Algumas vezes que me sentia triste e
aborrecido com determinada situação, lá estava ele para consolar-me. Permanecia
ao meu lado, fitando-me e com o olhar parecia que compreendia meu
sofrimento.Adorava companhia, detestava ficar só e, por isso, procurava ficar
no mesmo ambiente da casa onde havia uma pessoa,de preferência minha esposa.Na
ausência dela, permanecia ao lado da porta da rua, esperando pacientemente a sua
volta. Atitude esta que gerou um comentário dela:
-Fernando, você reparou que o Nick,
parece que divide seus sentimentos. Se você se ausenta não basta minha
companhia, ele se posta diante da porta esperando por você. E quando sou eu é a
mesma coisa. Ele só esta feliz com a presença de nós dois!Tive que concordar. O
nosso cãozinho tinha de fato uma fidelidade
inquestionável.
Se estivéssemos em casa assistindo TV, ele permanecia ao nosso lado
deitado no tapete da sala, como se estivesse assistindo a TV também. Era um
companheiro inseparável.
Quando viajávamos ele escolhia a
janela do carro para colocar a cabecinha para fora e ficar tomando o vento na
sua carinha peluda!
Tinha um gênio irascível, se não
gostava de alguma coisa rosnava e não adiantava insistir que talvez ele
mordesse!Nunca tentamos passar deste limite para não testar seus afiados
caninos!Não gostava de ser escovado, não gostava de ser agarrado, para tomar
banho era uma briga, pois ele relutava em ir. E para dar uma lambidinha em sinal
de gratidão como outros cães fazem era raridade. Mas não importa gostávamos dele
do jeito que ele era!E ele se relacionava muito bem com a gente. Sempre alegre e
brincalhão.Mesmo com a idade mais avançada,foi sempre um
grande companheiro.
E foram exatos 11 anos e 10 meses de convivência. Mesmo portador de
diabetes e cego, ele se adaptava as adversidades, lutava com tenacidade contra a
doença.Tinha uma grande vontade de viver, e nos brindava todos os dias
com exemplos de perseverança e superação. Até que um dia, já debilitado com a
doença que o consumiu, ele era também portador de um mastocitoma, não resistiu,
e foi acometido por um fulminante ataque cardíaco. Deu um sussurrado grunhido e
foi-se. Não deu tempo para despedidas.Em silêncio e sem alardes, nosso grande
amigo partiu. Na verdade era um anjo disfarçado de amigo. Era puro e inocente. E
fez nossa vida colorida e recheada de beleza.
Quero ter eternamente sua amizade. Até aqui
viajamos juntos. Mas você nos deixou, seguindo outro caminho. Embora assim
quisesse o destino. Leve nossa saudade e a
nossa esperança de um reencontro. Adeus meu amigo Nick!
(20/07/2000-12/05/2012).